quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dom Quixote no Caminho da Leitura




O texto de Marisa Lajolo acena um Lobato endividado que, por meio da venda de livros infantis e traduções, tenta sobreviver e pagar suas contas. Tal dado se apresenta através de cartas escritas por Lobato destinadas a sua irmã, a Anísio Teixeira e a Godofredo Rangel. Nessas cartas, Monteiro Lobato mostra que ele “só se volta para as Letras quando o bolso se esvazia”. 

Ao mesmo tempo, Lajolo sugere, a nosso ver, um escritor/educador lobateano com um projeto de leitura e, sobretudo, de formação de leitores críticos materializado na obra “D. Quixote das crianças”. Nessa obra, Lobato sinaliza um debate acerca da leitura dos clássicos no original para crianças, o processo de adaptação do original para um público mais “imaturo”, o papel da mediação (na figura de Dona Benta) para a formação do leitor, a ativa atitude responsiva do ouvinte/leitor no momento de escuta do texto literário, a variação histórica da língua, entre outras questões. Desse modo, Lajolo defende que no texto “D. Quixote das Crianças” há uma reflexão sobre questões de leitura e de leitores. 

Concordamos com a autora e, nesse contexto, apresentamos a obra “Fábulas” de Monteiro Lobato como parte constitutiva desse projeto de formação de leitores críticos. O nosso ponto de vista incide sobre a ideia de que nas “Fábulas” há também uma promoção de formar leitores, especificamente, no momento em que os personagens (Emília, Narizinho, Pedrinho) lobateanos tecem comentários sobre as fábulas lidas por Dona Benta. Inferimos que essa formação de leitores foi possível porque Monteiro Lobato, no seu “fazer literário”, ampliou a forma composicional do gênero textual escrito fábula, ou seja, a fábula, comumente, traz em sua forma uma moral da história, no entanto, Lobato traz um comentário dos personagens do Sítio abaixo de cada fábula, o que resulta numa constituição de leitor crítico que intervém na história, dialoga com ela e não aceita passivamente “a moral” das fábulas. 

Acreditamos que o diálogo empreendido por tais personagens vem ao encontro das assertivas de Bakhtin (2003) quando afirma que na vida social dos falantes (incluímos as atividades de leitura), não há passividade em nenhuma das duas partes – locutor e receptor. Há uma ativa atitude responsiva: o ouvinte ao compreender (não codificar) o significado ou sentido do discurso do falante poderá concordar, discordar, completar, etc. Com o exposto, acreditamos que Lobato, um Dom Quixote no caminho da leitura presentifica um escritor que, a nosso ver, queria também produzir livros que um dia as crianças pudessem morar, dialogar, se encantar, aprender...

Referência

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 4 ed. São Paulo: Ática, 1999.
LOBATO, Monteiro. Fábulas. 50 ed. São Paulo: Brasiliense, 2005.

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